3.15.2011

Temporal


Parei no tempo para pensar nele.
Tempo que é dono da mente louca, da mente sã, da paciência.
O tempo que adoramos ter, o tempo que não vemos a hora de voar.
O tempo que agoniza, o tempo que acalma.
O tempo da infância, livre.
O tempo da juventude, transviado, apocalíptico, da morte.
O tempo da maturidade, estável, futuro, na sua melhor corrida do tempo.
O tempo do relógio.
O tempo da cabeça.
O tempo do amor. Aquele que num tempo agoniza, no outro consola. O tempo de se dizer falta muito tempo para se encontrar. O tempo pra dizer que logo estamos juntos no mesmo tempo.
Ao tempo só tenho a dizer: é sim, quer eu goste ou não, minha melhor companhia.

11.11.2010

Viagem

Sentindo a lentidão do dia...
no entremeio de cidades.
O bafo de barulho, as arrancadas
Respingo todos os pingos da estrada
Sinto a agonia de chegar
E a vontade de partir
Em cores, texturas e abraços
Dormir em tremores
Acordar em veludos
...

7.30.2010

Dias

Há tantas maneiras de explicar os dias:

O horóscopo, um amigo ausente que, mesmo sem saber que é o dia de seu aniversário, aflorou a cútis. O ascendente que começa a agir na idade. A cidade nova. As inúmeras possibilidades, os detalhes que resolvem aparecer; as dúvidas!

O socorro vem para acalmar a alma. A ligação no meio do dia para ouvir a voz que, nos raros momentos, acalma. “E aí, tá tudo bem?” Seriam horas para descrever essa pergunta.

Por meio dia, não saber o que somos, o que gostamos, o que sabemos fazer, se temos a alma feminina, masculina, racional ou emocional.

O melhor é conversar com o senhor na calçada, de 60 anos, que também pega duas horas de condução para chegar ao colégio antigo. A secretária sensibilizada com a dor de solidão, desespero, saudade, momento órfão, expresso no banco antigo, segurando um copo plástico com água: “Quer que ponha açúcar? Não chora, senão choro também.”

Isso existe em São Paulo? Mais do que imagina, é só procurar no lugar certo: o simples. As inúmeras lojas no Brás, o cheiro de Recife em centro antigo com carne de panela nos botecos de esquina. A conversa, muita conversa, a dor de cabeça. A tentativa de explicar o universo para resolver uma questão.

O álcool, para relaxar os músculos. A mente estressada estressa também os músculos, as fibras, o córtex...

Gosto de falar sobre o Karma. Já escrevi sobre minha relação com essa palavra, apesar de ainda não definir o sentido: o melhor figurativo que escrevi até hoje sobre o Karma foi a história de uma mulher que ateou fogo em um posto de gasolina e vai nascer um peixe do Lago Igapó na próxima vida.

Mas descobri, em um livro sobre o assunto que, ao dormir, nos desligamos do mundo e acordar significa renascer. Nosso corpo sente o começo, todos os dias.

Em São Paulo, descobri ainda mais o significado da palavra fã. Pois de perto vejo pessoas nesta cidade com o objetivo de se expressar para fazer com que você entenda a vida. Que solidários! Expõem suas angústias, descobertas e poesias para nos fazer entender a vida.

Tá bom, nunca se entende a vida. Mas pelos cinco minutos, entendemos o que a música embala. A sabedoria é nossa e, logo, ela se esvai para o universo, pois ele não se explica em uma questão, nem mesmo em letra e melodia, por mais sonora e ritmada que seja.

“A noite é o dia que dorme e o dia é a noite ao despertar”
O mundo é assim, da Velha Guarda da Portela e cantada por Bruno Morais.

 
Entrevista com Bruno Morais por Saraiva Conteúdo

Entendeu?

7.29.2010

Reação

Existem poucos momentos em que a terra perde o chão, o coração aperta, o olhar pesa, as lágrimas não pedem licença.

A mente inerte às reações do corpo. Tremo. Me resta sentir.

Refletir sem razão, para deixar as pernas quietas, a fumaça apagada.

Os olhos pesam, mas não durmo.

Existem poucos momentos, senão seria o fim.

7.06.2010

Audição

Os sons confundem.

Todos os dias, paro em um cruzamento da Rebouças com a Pedroso de Moraes. É o instante em que sinto o sol em meu rosto e fecho os olhos para acordar de vez com o calor.

Sem o estímulo para ver, enxergo o que ouço: ondas constantes que se aproximam e logo voltam à imensidão.

O cheiro de protetor – para combater o envelhecimento precoce da pele – com o leve suor da pedalada, salga o vento.

Por cinco segundos, sou do mar.