Tempo que é dono da mente louca, da mente sã, da paciência.
O tempo que adoramos ter, o tempo que não vemos a hora de voar.
O tempo que agoniza, o tempo que acalma.
O tempo da infância, livre.
O tempo da juventude, transviado, apocalíptico, da morte.
O tempo da maturidade, estável, futuro, na sua melhor
corrida do tempo.
O tempo do relógio.
O tempo da cabeça.
O tempo do amor. Aquele que num tempo agoniza, no outro
consola. O tempo de se dizer falta muito tempo para se encontrar. O tempo pra
dizer que logo estamos juntos no mesmo tempo.
Ao tempo só tenho a dizer: é sim, quer eu goste ou não, minha melhor companhia.
Sentindo a lentidão do dia... no entremeio de cidades. O bafo de barulho, as arrancadas Respingo todos os pingos da estrada Sinto a agonia de chegar E a vontade de partir Em cores, texturas e abraços Dormir em tremores Acordar em veludos ...
O horóscopo, um amigo ausente que, mesmo sem saber que é o dia de seu
aniversário, aflorou a cútis. O ascendente que começa a agir na idade. A cidade
nova. As inúmeras possibilidades, os detalhes que resolvem aparecer; as
dúvidas!
O socorro vem para acalmar a alma. A ligação no meio do dia para ouvir a voz
que, nos raros momentos, acalma. “E aí, tá tudo bem?” Seriam horas para
descrever essa pergunta.
Por meio dia, não saber o que somos, o que gostamos, o que sabemos fazer, se
temos a alma feminina, masculina, racional ou emocional.
O melhor é conversar com o senhor na calçada, de 60 anos, que também pega
duas horas de condução para chegar ao colégio antigo. A secretária
sensibilizada com a dor de solidão, desespero, saudade, momento órfão, expresso
no banco antigo, segurando um copo plástico com água: “Quer que ponha açúcar?
Não chora, senão choro também.”
Isso existe em São Paulo? Mais do que imagina, é só procurar no lugar certo:
o simples. As inúmeras lojas no Brás, o cheiro de Recife em centro antigo com carne de
panela nos botecos de esquina. A conversa, muita conversa, a dor de cabeça. A tentativa de explicar o
universo para resolver uma questão.
O álcool, para relaxar os músculos. A mente estressada estressa também
os músculos, as fibras, o córtex...
Gosto de falar sobre o Karma. Já escrevi sobre minha relação com essa
palavra, apesar de ainda não definir o sentido: o melhor figurativo que escrevi até hoje sobre o Karma foi a história de uma mulher que ateou fogo em um posto de gasolina e vai nascer um peixe do Lago Igapó na próxima vida.
Mas descobri, em um livro sobre o assunto que, ao dormir, nos desligamos do
mundo e acordar significa renascer. Nosso corpo sente o começo, todos os dias.
Em São Paulo, descobri ainda mais o significado da palavra fã. Pois de perto
vejo pessoas nesta cidade com o objetivo de se expressar para fazer com que
você entenda a vida. Que solidários! Expõem suas angústias, descobertas e
poesias para nos fazer entender a vida.
Tá bom, nunca se entende a vida. Mas pelos cinco minutos, entendemos o
que a música embala. A sabedoria é nossa e, logo, ela se esvai para o universo,
pois ele não se explica em uma questão, nem mesmo em letra e melodia, por mais
sonora e ritmada que seja.
“A noite é o dia que dorme e o dia é a
noite ao despertar”
O mundo é assim, da Velha Guarda da Portela e cantada por Bruno Morais.
Todos os dias, paro em um cruzamento da Rebouças com a Pedroso de Moraes. É o instante em que sinto o sol em meu rosto e fecho os olhos para acordar de vez com o calor.
Sem o estímulo para ver, enxergo o que ouço: ondas constantes que se aproximam e logo voltam à imensidão.
O cheiro de protetor – para combater o envelhecimento precoce da pele – com o leve suor da pedalada, salga o vento.